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Quando aprendemos na escola que "Sr. CaBaRá Bebeu Magnésio" e "LiNaK Roubou o Césio na França", mal poderíamos pensar que um dia isto fosse acontecer no meio do Brasil, com pessoas que tinham nomes e histórias comuns e que nunca entraram num laboratório de química e por certo nunca tiveram que decorar estas frases para lembrar de metais alcalinos numa prova.
Em 13 de setembro de 1987 foi roubado um aparelho de radioterapia abandonado que continha uma fonte de cloreto de césio do Instituto Goiano de Radioterapia, na avenida Paranaíba (mais tarde tornou-se o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia, revestido de placas de metal azul, inaugurado em 1994). O "roubo" foi praticado por Roberto Santos Alves e Wagner Mota. A cápsula com cloreto de césio foi aberta no quintal da casa onde morava Roberto Alves e seu amigo Wagner Mota, que venderam em 18 de setembro de 1987 a peça, chumbo e fonte, a um ferro-velho na Rua 57, nº 68, em Goiânia, de propriedade de Devair Alves Ferreira e Ivo Alves Ferreira. (Quadro a quadro, jornal O Popular.)
Ao ser violada, perdeu, aproximadamente 90% do seu conteúdo, com o césio em pó espalhando-se num pequeno pedaço de tapete colocado sobre o chão, à sombra de duas mangueiras. Parte do material ficou no recipiente, mais tarde levado para outro local. Atraídos pela luminescência do césio, adultos e crianças o manipularam e distribuíram entre parentes e amigos. O "pó venenoso" sem cheiro, nem quente nem frio, sem gases, inofensivo foi manuseado pelas pessoas que o deixavam onde colocavam as mãos os pés ou onde se sentavam; foi distribuído para ser levado para casa em vidrinho, colocado no bolso, esfregado no corpo. Foi varrido para baixo de armários, para a cozinha, para o quintal. Foi lavado pela chuva e carregado pelo vento.
Devair presenteou sua sobrinha Leide, de seis anos, com uma porção do pó cintilante; a menina espalhou-o pelo corpo e comeu pão com as mãos sujas, ingerindo césio. Um dos companheiros de Devair esfregou o pozinho na pele para sentir o brilho no próprio corpo; outro guardou um pouco no bolso, pegou um ônibus e foi para casa, enfeitou a geladeira com uma parte e guardou o resto embaixo da cama para ver o brilho durante a noite.
Um complexo encadeamento de fatos resultou na contaminação de três depósitos de ferro-velho, um quintal, uma repartição pública e diversas residências e locais públicos. (Rua 57, nº 68 [casa do Roberto]; rua 63, nº 19, fundos [casa do Ovídio]; rua 26-A e rua 15 [ferro-velho I - Devair]; rua 6, quadra Q, lote 18 [ferro-velho II - Ivo]; rua P 19, lote 4 [ferro-velho III - Joaquim]; rua 17-A, quadra 70 A, lote 26 B [casa da fossa-Ernesto Fabiano]; rua 16-A nº 792 [Vigilância Sanitária])
Os primeiros sintomas da contaminação - náuseas, vômitos, tonturas, diarréia, apareceram algumas horas após o contato com o material. As pessoas procuravam farmácias e hospitais e eram medicadas como vítimas de alguma doença infecto-contagiosa.
Somente em 29 de setembro, um dia após a esposa e um empregado de Devair terem levado parte do aparelho para a sede da Coordenadoria de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde, aqueles sinais foram identificados como característicos da síndrome da radiação. Alguns pacientes já tinham sido recebidos pelo Hospital de Doenças Tropicais de Goiânia (HDT) e um dos médicos consultou a Secretaria de Saúde de Goiás, cabendo ao físico Walter Mendes Ferreira, que ali trabalhava, dar o alarme.
Mendes obteve da agência local da NUCLEBRÁS um cintilômetro e foi até a sede da Vigilância Sanitária, onde a peça da cápsula tinha sido posta sobre uma cadeira, o medidor confirmou a hipótese; ali estava a origem de tudo.
Chegaram à cidade técnicos do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), ambos da CNEN, médicos e físicos brasileiros e estrangeiros, além de estudantes da Escola Técnica Federal de Goiás e o professor José Carlos Marques Freitas e seus alunos da ETF de Química-RJ. Além destes, foram recrutados os serviços de FURNAS e NUCLEBRÁS para darem assistência às vítimas.
Veja algumas notas publicadas sobre este acidente radioativo.
Em 3 de outubro, embarcaram três pacientes e no dia seguinte mais quatro pacientes para serem internados no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Cerca de 40 pessoas foram segregadas em Goiânia, internadas no Hospital Geral do INAMPS e mantidas em quarentena no Centro de Recuperação da FEBEM.
A CNEN fez pronunciamento oficial em cadeia de rádio e televisão ainda quando nem sabia o que tinha pela frente.
Devair, com um eritema na face, indicava contaminação com alta taxa de dose de radiação na cabeça e a menina Leide, apontava alta contaminação interna, -os detectores, quando próximos dela, disparavam.
Foi avaliada a seguinte dose para cada paciente:
| Devair Alves Ferreira | 700 Rem |
| Maria Gabriela Ferreira | 550 Rem |
| Leide Alves Ferreira | 600 Rem |
| Roberto Santos Alves | 600 Rem |
| Admilson Alves de Souza | 500 Rem |
No decorrer dos anos outras 3 pessoas faleceram. Entre elas, o Devair. Veio a falecer tempos depois. Seu laudo cadavérico (exames feitos por Badan Palhares) indicaram que teve como causa-mortis cirrose.
Novos laudos mostraram que Devair tinha câncer de próstata e esôfago, sua medula estava pré-leucêmica, ele já não tinha testículos e a mucosa de seu intestino estava destruída. Em janeiro de 2001 morreu a 14ª vítima do acidente.
Foi criada, pelo governo do Estado, a Fundação Leide das Neves Ferreira. No Congresso Nacional foi estabelecida uma CPI mista para avaliar as responsabilidades pelo acidente com material radioativo e outra no Senado Federal para avaliar:
a) as responsabilidades político-administrativas do acidente com a cápsula de Cs137 em Goiânia no mês de setembro de 1986, no Município de Goiânia - GO;
b) a extensão real do acidente no tocante a número de vítimas, prejuízos econômicos, perdas familiares, empresariais e públicas;
c) as providências - sua oportunidade, presteza, e competência - dos Governos Federal, Estadual e Municipal, e, particularmente da CNEN, tanto no momento da descoberta do acidente como nas suas etapas posteriores, inclusive transporte e cuidado com as vítimas e com o material contaminado;
d) a estrutura institucional e política de fiscalização governamental e sobre equipamentos nucleares, materiais radioativos e similares particularmente no tocante à ações preventivas e emergenciais de segurança civil;
e) a necessidade de se distinguir um novo conceito de "segurança civil", ao qual concorrerão vários organismos hoje abrigados na esfera da segurança pública, defesa civil e do meio ambiente, tendo em vista início no Brasil do ciclo completo do urânio enriquecido e a proliferação de equipamentos de medicina nuclear;
f) as soluções, de curto, médio e longo prazo para a eliminação dos efeitos do acidente em Goiânia, com reparos a todas as vítimas e prejudicados, bem como para os problemas levantados sobre a fiscalização de experimentos nucleares e uso de materiais radioativos;
g) situação da CNEN, alternativas institucionais para questão nuclear no Brasil e formas de assegurar a transparência de suas ações junto ao Congresso Nacional e à cidadania, principal interessada nos efeitos do ingresso do Brasil na era nuclear.
Respeitando as proporções, Goiânia significou para o Brasil o que foi Chernobyl para a ex-União Soviética.