Tratamento Médico dado às Vítimas em Goiânia. Retorna para o Índice
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Tratamento Médico

Nesse primeiro momento o tratamento das vítimas em estado menos grave consistia, basicamente, em descontaminação externa com lavagem, usando água e sabão ou um detergente suave, para retirar da pele o pó e resíduo e melhorar as condições de eliminação das partículas gordurosas. A rotina consistiu em banhos e monitoração para verificar se os índices diminuíam. Em alguns foi usado vinagre, que é um ácido fraco, de ação abrasiva suave.

Potássio e césio hidratados permitiram a descontaminação interna, por coprecipitação, através da preparação de resinas catiônicas sintéticas carregadas com Azul da Prússia. Como elas não podem ser aplicadas a seco, foram preparados géis, cremes e pastas d'água, espalhando-as sobre a pele dos contaminados.

Essa solução química provocou resistência da parte médica, mas, foi preferível, à toxidade do césio, a de uma resina, que é mínima. Foram obtidos bons resultados na eliminação do césio.

O tratamento dos pacientes foi dividido em tratamento da síndrome aguda da radiação, através da depressão da medula óssea, da sua hipoplasia ou da sua aplasia; o destinado à recuperação das radiolesões; o tratamento da decorporação; e o de suporte e psicoterapia.

Com relação à fase aguda, foi feito: isolamento, repouso, vitaminoterapia, dieta livre de alimentos crus e hiperprotéica, esterilizada, inclusive a água e o leite (os pacientes estavam imunodeprimidos), reposição hidroeletrolítica, e a prevenção e tratamento de infecções oportunistas; ainda, transfusão de hemácias, de plaquetas previamente irradiadas e infusão de um fator de estimulação da medula óssea.

A síndrome aguda com depressão da medula óssea ocasionou 4 óbitos, por infecção e/ou hemorragia. A descontaminação dos pacientes foi feita com água e sabão. No início usou-se ainda ácido acético e dióxido de titânio. Mais tarde, água, sabão neutro, dióxido de titânio, seguido de lavagem com água morna, permanganato a 4% e hipoclorito de sódio a 0,5%. Também foram usadas pomadas à base de lanolina e óxido de titânio; elas funcionam como um creme que, ao ser removido, limpa a pele, descamando-a.

Na interna (decorporação) foi usado o radiogardase e o Azul da Prússia, que é uma mistura de ferro com ferrocianeto férrico, na proporção de 4 para 3. O produto age como uma resina de troca iônica, um carregador de íons. O césio, que é excretado pela via urinária passa então a ser eliminado também pelas fezes; este medicamento não tem efeitos colaterais, desde que totalmente puro.

Não se sabia a dose a ser usada e se seria eficaz, porque havia informação de que só atuaria nas primeiras 48 h; como não havia alternativa se optou por usá-lo mesmo 2 semanas após a contaminação; aumentou-se a dose diária e se acompanhou a eliminação do césio. Para os adultos foram usadas doses de 3 a 10 g; para as crianças, de 1 a 3 g. Os resultados foram satisfatórios. Também se usou: diuréticos (hidroclorotiazida, de 50 a 100 mg; e furosemida, para estimular a diurese; a hidratação oral forçada teve o mesmo objetivo).

Também foram utilizados sauna e exercícios ergométricos para ajudar na decorporação pela sudorese.

Na pele, inicialmente surgiram eritemas (semelhante a radiação solar) e prurido, queda de cabelos, formigamento e dormência; depois aparecem bolhas muito dolorosas. Nesta fase foram feitas aplicações tópicas de medicamentos e imersões em bacias com substâncias analgésicas e anti-sépticas. Na 3ª fase, quando as bolhas se romperam foram utilizadas soluções e pastas à base de tanino, óleo de babosa e substâncias anti-inflamatórias.

Também foram realizados debridamentos cirúrgicos e amputações, o uso de antibióticos e fungicidas, procedimentos anti-hemorrágicos, enxertos de medula óssea, reposição de fluidos. O grande problema das radiolesões é a sua característica cíclica e crônica; são lesões vasculares e de comprometimento profundo, o que permite a recidiva. Um número grande de pacientes teve radioepidermites que corresponderiam só à descamação da pele da mão ou de outra região do corpo.

Odontologia

Os primeiros atendimentos foram no HGG; depois se instalou um consultório emergencial na FEBEM. O objetivo era: aliviar a dor da odontalgia bucal, eliminar as infecções focais, aliviar as condições das próteses e restabelecer a estrutura funcional. As alterações mais comuns eram: candidíase, dos tipos pseudomembranosa e crônica ativa; e petéquias hemorrágicas em 70% dos casos.

Não se detectou aumento na incidência de cáries e doenças periodontais. Observou-se grande hipersensibilidade dentária, ao calor e frio.

Anatomopatológico das Vítimas Fatais

Havia queda de cabelos e mudança na textura da pele. Em uma vítima haviam múltiplas lesões hemorrágicas em toda a superfície corporal, do couro cabeludo aos pés; ao se rebater o couro cabeludo, isto era ainda mais nítido na musculatura. Haviam áreas que pareciam verdadeiros hematomas, áreas de coleções hemorrágicas.

Os órgãos internos tiveram modificada a sua tonalidade, com aspecto negróide, aumento de volume e de consistência. Também áreas de necrose em vários locais que tiveram contato direto com a substância.

Na região torácica o tecido pulmonar apresentava hemorragia difusa; também múltiplas sufusões hemorrágicas na superfície cardíaca e pericárdica. No pâncreas, também múltiplas áreas de hemorragia.

Houveram 2 casos em que não se constatou o aspecto hemorrágico difuso. Em um caso, o pulmão estava tão alterado que lembrava o fígado, endurecido por um processo inflamatório, não por ação direta do Cs137. Também o estômago apresentava múltiplas áreas hemorrágicas.

Quatro pacientes eram gestantes; os RN não apresentaram problemas e as gestações evoluíram sem intercorrências. Algumas lesões, devidas a radiação beta, foram superficiais. Outras, por raios gama, são evolutivas.

Há sempre a possibilidade de surgimento de efeitos biológicos tardios, principalmente a cancerização, com desenvolvimento de neurofibrossarcomas, uma forma rara de câncer. Indução de câncer pulmonar, de tireóide ou de fígado requerem uma ou 2 décadas, enquanto a leucemia pode manifestar-se em 5 a 10 anos.

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