Manobra para Teste de Emergência

Retorna para o Índice

1ª parte 2ª parte 3ª parte 4ª parte

Teste de Parada de Emergência

Em 25 de abril, a unidade 4 seria desligada para manutenção de rotina. Houve, no entanto, uma pequena mudança no cronograma original. Antes do desligamento da unidade desejava-se realizar uma experiência, destinada a testar se a refrigeração do núcleo do reator estaria garantida, caso houvesse perda de corrente alternada.
Centrais nucleares não produzem apenas eletricidade, mas também são consumidoras de energia -usada para acionar as bombas que refrigeram o reator e os sistemas auxiliares. Quando uma usina está em funcionamento e acima de 20% de sua carga máxima ela se auto-alimenta (chamamos de transferência dos equipamentos auxiliares), quando está abaixo deste valor de carga, a energia necessária para manter seus equipamentos vem do sistema elétrico externo.
No entanto, para sua segurança, além de contar com a energia do sistema elétrico externo e na falta deste poder se auto-sustentar, também conta com geradores de emergência, que após uma falha do sistema elétrico externo e interno de alimentação, entram em serviço.
O teste realizado na unidade 4 era para avaliar se o turbogerador, girando ainda por inércia, com o reator desligado, proveria energia suficiente para manter as bombas de água de circulação em funcionamento, mantendo uma margem segura de refrigeração do reator, enquanto os geradores diesel de emergência não entrassem em serviço.
Infográfico de O Globo.
A experiência começou à 01:00 do dia 25, o reator produzia 3.200 MW térmicos.
A potência do reator foi progressivamente reduzida, chegando a 1.600 MW de potência térmica às 03:47 do mesmo dia. Os sistemas necessários para a operação do reator (4 bombas de circulação para resfriamento e 2 bombas auxiliares) foram transferidos para o barramento do gerador no qual a experiência deveria realizar-se.
Às 14:00, o sistema de resfriamento de emergência foi desligado para evitar que entrasse em funcionamento durante a experiência, fato que desativaria automaticamente o reator.
Houve um aumento de consumo por parte do sistema elétrico da região e o Despacho de Carga suspendeu a redução de potência na usina, mantendo-se desligado o sistema de  resfriamento de emergência. A redução da potência só foi retomada às 23:10.
Às 24:00 houve troca do turno. O turno da noite contava com 256 funcionários.
À 00:05 a potência caiu para 720 MW (t) e continuava sendo reduzida.
Às 00:28 o nível de potência estava em 500 MW (t). O controle foi passado para automático. A experiência que se pretendia realizar não estava prevista pelo sistema automático de controle. Passou-se para o controle manual, mas o operador não conseguiu recuperar com suficiente rapidez o desequilíbrio do sistema e a potência do reator caiu rapidamente para 30 MW, insuficiente para a realização da experiência.
No período em que o reator funcionou em baixa potência, ele foi envenenado pela formação de xenônio, produto de fissão, forte absorvente de nêutrons e dotado de vida média bastante longa. Para controlar esta situação, podia-se aguardar 24 horas até que o xenônio fosse dissipado ou elevar-se a potência rapidamente. Mas a pressão em se realizar o teste foi maior, pois se não fosse feito naquela ocasião só seria realizado dentro de um ano.
Aproximadamente à 00:32 removeu-se as barras para subir a potência.
Começaram a elevar a potência. Por volta de 01:00, a potência ficou em 200 MW (t). Ainda estava com veneno e difícil de controlar, assim retiraram mais barras de controle. Normalmente um mínimo de 30 barras são mantidas no reator, deixaram apenas 6 barras das 211. Optou-se pela remoção das barras de controle, aumentando a potência do reator entrando num regime de funcionamento instável, com risco de sofrer elevações incontroláveis de potência.
Permitiram esta situação deliberadamente e desligaram o sistema de refrigeração do reator, os sistemas de reserva e também o gerador diesel, que permitiria inserir as barras de controles em emergência. À 01:03 e 01:07 aumentaram o total de bombas de circulação para 8, reforçando o sistema de refrigeração e diminuindo o nível de água no separador de vapor.
À 01:15 o sistema de desarme para baixo nível no separador de vapor foi desligado. À 01:18 aumentou-se o fluxo de água no núcleo do reator para evitar problemas com sua refrigeração. À 01:19 aumentou-se a potência, algumas barras foram movidas, manualmente, para além da posição-limite prevista e elevando a pressão no separador de vapor.
À 01:21:40 a taxa de fluxo de água de circulação foi levada abaixo do normal pelo operador a fim de estabilizar o separador de vapor, diminuindo a remoção de calor do núcleo.
À 01:22:10 começou a se formar vapor no núcleo. À 01:22:45 a indicação para o operador dava a impressão de que o reator estava normal. A resistência hidráulica do sistema de refrigeração atingiu um ponto menor do que o previsto para o funcionamento seguro do reator.
O operador tentava, sem êxito, por meio de controles manuais, manter os parâmetros para o reator poder funcionar com segurança. A pressão de vapor e o nível da água caíram abaixo do permitido, fazendo soar os alarmes que exigiam o desligamento do reator. O operador desligou o próprio sistema de alarme.
A energia da reação em cadeia passou a crescer desenfreadamente. À 01:22:30, a potência tinha caído a um valor que exigia o imediato desligamento do reator, mas, apesar disso, a experiência continuou.
À 01:23:04 o teste propriamente dito começa, desligaram o turbogerador, fechando as válvulas de entrada da turbina. Com isto, a energia para as bombas d'água foi abaixando, reduzindo o fluxo de água para resfriamento e por sua vez, a água no núcleo começou a ferver. A água que atuava como absorvedora de nêutrons, limitando a potência, fervendo, aumentou a potência do reator e o aquecimento.
Estava criada uma situação irregular, com 8 bombas funcionando e a potência de 200 MW, e não de 500 MW, conforme o estabelecido no programa. Mais tarde, verificou-se que o ideal era uma potência de 700 MW (t).
À 01:23:21 a geração de vapor aumenta, devido ao coeficiente positivo do reator, aumentando a potência.
À 01:23:35 o vapor aumenta incontrolavelmente.
A ordem de desarmar o reator foi dada à 01:23:40 -o botão AZ-5 é acionado para inserir as barras de controle e deveria resultar na introdução de todas as barras de controle. A água começou a ferver e diminuiu a densidade do meio refrigerante, por sua vez o número de nêutrons livres aumentou, aumentando a reação de fissão.
Com a inserção das barras, houve o deslocamento da água que refrigera os elementos combustíveis para dar lugar ao encamisamento e no primeiro instante houve uma subida brusca na potência ao invés do efeito desejado que é reduzir a potência. Toda a reatividade ficou concentrada na parte de baixo do reator.
À 01:23:44 a potência atingiu um pico de 100 vezes maior do que o valor de projeto.
À 01:23:45 as pastilhas começam a reagir com a água de circulação produzindo alta pressão nos canais de combustível.
À 01:23:49, os canais se rompem. Em seguida, ouviu-se um estrondo. Uma explosão de vapor.
O operador desernergizou o sistema de barras de controle, na esperança de que as 205 caíssem pela força da gravidade. Mas isso não ocorreu; já houvera danos irreparáveis ao núcleo.
Unidade 4 após explosão. À 01:24 houve uma segunda explosão, a tampa de cimento do reator, de 2.000 t, foi violentamente levantada a 14 m de altura e seus destroços foram espalhados por cerca de 2 km espalhando no ar centelhas e pedaços de material incandescente. (PDF)
Unidade 4 após explosão. No momento da explosão, o combustível estava entre 1.300 e 1.500 ºC e 3/4 do prédio foi destruído, a tampa caiu sobre a beira da boca do núcleo, ficando em equilíbrio precário, deixando parte em descoberto. A explosão permitiu a entrada do ar. O ar reagiu com o bloco do moderador que é feito de grafite formando monóxido de carbono, um gás inflamável e que provocou o incendiamento do reator. Das 140 t de combustível, 8 t continham plutônio e produtos de fissão que foram ejetados junto com o grafite radioativo.
Equipamento danificado. Iniciaram-se várias explosões e outros 30 incêndios nas imediações. O aquecimento da água de circulação produziu grande quantidade de vapor, que penetrou no edifício do reator. A estrutura de grafite incendiou-se. Houve uma reação química com o grafite da estrutura e o zircaloy, que reveste os elementos combustíveis e os tubos de pressão de vapor e de água, liberando hidrogênio e monóxido de carbono, gases que, em contato com o oxigênio do ar, formam uma mistura explosiva.
O aumento da temperatura prosseguiu por causa do incêndio da estrutura de grafite, dos processos espontâneos de desintegração nuclear dos isótopos formados no reator e das reações químicas dentro do recipiente, como oxidação de grafite e de zircônio e queima de hidrogênio. O incêndio foi apagado em 30 de abril de 1986, às 17:00.
Foram liberados 3 milhões de terabecqueréis para a atmosfera. Sendo que 46.000 terabecqueréis composto de materiais com meia-vida longa (plutônio, césio, estrôncio). Chernobyl foi igual a 500 vezes a explosão sobre Hiroshima.
Isótopo Elemento Meia-Vida Atividade (TBq)
Cs137 Césio 30 anos 85.000
Cs134 Césio 2,1 anos 54.000
I131 Iodo 8 dias 1.760.000
Xe133 Xenônio 5,3 dias 6.500.000
Mo99 Molibdênio 2,8 dias 168.000
Zr95 Zircônio 64 dias 196.000
Ru103 Ruthênio 39 dias 168.000
Ru106 Ruthênio 368 dias 73.000
Ba140 Bário 12,7 dias 240.000
Ce141 Cério 32,5 dias 196.000
Ce144 Cério 284 dias 116.000
Sr89 Estrôncio 59,5 dias 115.000
Sr90 Estrôncio 29,2 anos 10.000
Pu240 e Pu239 Plutônio 6.500 - 24.000 anos 72
1ª parte 2ª parte 3ª parte 4ª parte