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A Coréia do Norte ameaçando o mundo com armas nucleares lembra um filme de Peter Sellers que passava na Sessão da Tarde com o título de "O Rato que Ruge" ou coisa insignificante similar. Era uma destas microscópicas monarquias européias e que para se arrumar resolve ameaçar os vizinhos com uma bomba. Chamou a atenção!
Etapas da Crise
OUTUBRO DE 1994: Após quatro meses de negociação, EUA e Coréia do Norte fazem um acordo em que Pyongyang concorda em desativar suas instalações nucleares e permitir inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em troca, o país passa a receber petróleo.
ABRIL DE 2002: O presidente dos EUA, George W. Bush, declara que não certificará que a Coréia do Norte cumpre o acordo, mas mantém o abastecimento de petróleo.
OUTUBRO: Os EUA dizem que a Coréia do Norte admitiu ter um programa de enriquecimento de urânio. O país responde que tem o direito de manter não apenas armas nucleares, mas outras mais poderosas para defender sua soberania em face da ameaça americana.
NOVEMBRO: Os EUA e aliados decidem cortar o abastecimento de petróleo para a Coréia do Norte. A AIEA exige que o país comunista permita que seus programas nucleares sejam inspecionados, declarando que não tem o direito de ter armas atômicas.
DEZEMBRO: A AIEA denuncia que a Coréia do Norte desligou equipamentos de monitoramento na usina de Yongbyon. Pyongyang diz que pretende reativar seu reator para produzir eletricidade. Os EUA e outros países condenam a medida. Coréia se diz pronta para guerra SEUL e WASHINGTON.
Depois de desligar câmeras de monitoramento instaladas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na usina nuclear de Yongbyon, a Coréia do Norte deu prosseguimento a seu desafio aos EUA, retirando dispositivos de proteção de equipamentos e desbloqueando o reator das instalações, informaram funcionários do governo de Pyongyang. Respondendo à declaração de Washington de que as forças americanas têm condições de travar duas guerras ao mesmo tempo (a outra seria contra o Iraque), o país comunista disse que suas forças estão prontas para um conflito armado.
O jornal oficial norte-coreano “Rodong Sinmun” afirmou que se Washington persistir com sua estratégia contra Pyongyang, poderá desencadear “uma catástrofe incontrolável”. Já o ministro de Defesa norte-coreano, Kim Il-chol, acusou os EUA de tentarem provocar uma guerra nuclear na Península Coreana e acrescentou que seu país tem “meios modernos de defesa e ofensiva capazes de derrotar qualquer inimigo”.
— Os falcões dos EUA são arrogantes o suficiente para alegar que a Coréia do Norte está levando adiante seu programa nuclear e, com isso, trazendo sua política hostil em relação à Coréia do Norte para uma fase extremamente perigosa.
Meios para fabricar cinco bombas
Pyongyang diz que seu objetivo, ao reativar a usina, é gerar eletricidade. Segunda-feira, a AIEA alertou entretanto, que, após se livrar de equipamentos de monitoramento, o país poderia conseguir produzir plutônio — usado em armas nucleares — o que considerou uma situação perigosa. Perguntado se Pyongyang fazia isso se aproveitando da atenção de Washington ao Iraque o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, comentou que os EUA estavam prontos para travar dois conflitos, embora estivessem procurando uma solução pacífica para a crise coreana. O presidente George W. Bush já disse que Coréia do Norte, Iraque e Irã formam um “eixo do mal”.
A AIEA disse que, com a desativação dos equipamentos de monitoramento, já não tem condições de verificar se a Coréia do Norte está fabricando armas nucleares. Segundo a agência, Pyongyang danificou equipamentos em três setores da usina nuclear de Yongbyon que poderiam ser usados para produzir plutônio enriquecido. Especialistas disseram que com 8 mil cilindros de combustível de plutônio existentes na usina o país poderá fabricar até 5 bombas atômicas.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Coréia do Norte disse que a retirada de dispositivos de proteção terminou, de modo que as instalações da usina nuclear estariam completamente desbloqueadas.
As atitudes da Coréia do Norte levaram vários países a exigir que o governo comunista abandone seus planos nucleares, inclusive a China, seu principal aliado, que pediu colaboração e diálogo para afastar a crise. O presidente da Coréia do Sul, Kim Dae-jung, criticou duramente o país vizinho por não dar ouvidos “ao mundo inteiro”.
França pede firmeza diante da Coréia
A França pediu que a comunidade internacional fique unida e firme em sua exigência de que Pyongyang cumpra seus compromissos e acordos internacionais.
— Essas novas iniciativas da Coréia do Norte são preocupantes. A França as deplora — disse Bernard Valero, porta-voz do Ministério do Exterior francês.
Em 1994, a Coréia do Norte assinou um acordo internacional em que se comprometeu a desistir de seu programa de armas nucleares. Mas em outubro admitiu a Washington que mantinha esse programa. Em reação, os EUA cortaram o abastecimento de petróleo, previsto no acordo. Argumentando que sem petróleo enfrentaria uma crise de energia, anunciou que reativaria um reator nuclear.
10.01.2003 - Folha de São Paulo
A Coréia do Norte anunciou sua retirada imediata do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, mas disse que não tem intenções de desenvolver armas atômicas, segundo uma nota oficial do governo, citada pela agência de notícias oficial KCNA. O anúncio ocorre enquanto dois diplomatas norte-coreanos destacados em Nova York conversavam no Novo México sobre a crise com Bill Richardson, ex-embaixador americano na ONU (Organização das Nações Unidas). "O governo da República Democrática Popular da Coréia anunciou num comunicado sua retirada do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e sua total liberdade em relação às obrigações contidas no acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA]", declarou. "Apesar de abandonarmos o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, não temos intenções de produzir armas nucleares e nossas atividades nucleares nesta etapa estarão limitadas a propósitos pacíficos como a produção de eletricidade", disse.
Pyongyang assinou em 1992 com a AIEA os acordos de salvaguarda do Tratado de Não-Proliferação Nuclear que consistem na inspeção das atividades e do material nuclear. O tratado limita as armas atômicas aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que são os EUA, Rússia, França, Reino Unido e China, proibindo a sua posse a todos os restantes signatários do acordo.
A Coréia do Norte rejeitou também uma resolução da AIEA que segunda-feira condenou severamente a decisão de Pyongyang retomar o seu programa nuclear e pediu autorização para o regresso dos inspetores expulsos no final de dezembro. Os inspetores supervisionavam um reator nuclear suspeito de produzir plutônio que pode ser utilizado por armas nucleares. No comunicado, Pyongyang rejeita a exigência da entidade nuclear da ONU para que readmitisse os inspetores.
20.07.2003-The New York Times
Autoridades americanas e asiáticas, com acesso à mais recentes informações sobre a Coréia do Norte, disseram que apareceram fortes evidências nas últimas semanas de que o país construiu um segunda instalação secreta para a produção de plutônio para armas, complicando tanto a estratégia diplomática para o encerramento do programa quanto as opções militares caso a diplomacia fracasse. A descoberta da nova evidência, que um alto funcionário do governo alertou ser "muito preocupante, mas ainda não conclusiva", ocorre logo após a Coréia do Norte ter declarado, 12 dias atrás, aos Estados Unidos, que já completou o reprocessamento de 8 mil barras de combustível nuclear usadas, o suficiente para produzir cerca de meia dúzia de armas nucleares.
As autoridades americanas disseram que não podem verificar a alegação, apesar de confirmarem que sensores montados nas fronteiras da Coréia do Norte começaram a detectar níveis elevados de criptônio 85, um gás emitido quando o combustível usado é convertido em plutônio. Mas o que preocupa os analistas americanos, sul-coreanos e japoneses não é simplesmente a presença do gás difícil de detectar, mas sua origem. Apesar dos satélites americanos se concentrarem há anos na principal instalação nuclear da Coréia do Norte, em Yongbyon, as análises de computador que rastreiam os gases à medida que se espalham pela Península Coreana parecem descartar a instalação de reprocessamento de Yongbyon como sendo sua origem. Em vez disso, as análises sugerem fortemente que o gás se originou de uma segunda instalação secreta, talvez enterrada nas montanhas.
As autoridades americanas há muito suspeitavam que a Coréia do Norte tentaria construir uma segunda instalação para se proteger contra um ataque preventivo dos Estados Unidos. Os americanos até mesmo exigiram uma inspeção de uma instalação subterrânea há cinco anos, apenas para encontrá-la vazia. Mas esta é a primeira vez que surge evidência de que uma segunda instalação pode estar em operação. "Isto pega um problema muito difícil e o torna infinitamente mais complicado", disse uma autoridade asiática que foi informada sobre a inteligência americana. "Como você pode verificar que eles suspenderam um programa destes se você não sabe onde tudo se encontra?" De fato, podem existir pelo menos duas instalações escondidas com capacidade para produzir material para armas nucleares. Em outubro, confrontadas com as evidências americanas, as autoridades norte-coreanas admitiram que tinham construído uma instalação para produção de urânio, outro combustível para uma bomba. (É a mesma abordagem que Saddam Hussein do Iraque tentou no início dos anos 90, e a que o Irã está buscando atualmente.)
As autoridades americanas disseram que nunca encontraram tal instalação, apesar de acreditarem que ela ainda levará alguns anos para produção em escala total. Se as atuais evidências estiverem sendo corretamente interpretadas, e também existir uma segunda instalação de plutônio, o presidente Bush poderá nem ter a opção que o presidente Bill Clinton considerou brevemente em 1994: a realização de um ataque militar ou sabotagem para impedir que a Coréia do Norte produza quantidades significativas de material nuclear para armas. Ainda assim, Bush prometeu que não tolerará uma Coréia do Norte nuclear. As autoridades americanas de inteligência se disseram cautelosas em fazer qualquer julgamento final sobre as novas evidências. Eles estão cientes de que as avaliações da CIA sobre o programa nuclear do Iraque provocaram um debate nacional sobre se a inteligência foi exagerada, e tornaram todas as evidências da agência suspeitas.
Tal questão também colocou a Casa Branca em choque com George Tenet, o diretor da agência central de inteligência, que sabe que a Casa Branca está se esforçando ao máximo para evitar chamar de crise o confronto nuclear com a Coréia do Norte. Até o momento, as autoridades da Casa Branca foram informadas apenas informalmente sobre as novas evidências e não foram plenamente colocadas a par sobre as implicações potenciais, disseram funcionários do governo. Mas a cada semana o esforço da Casa Branca para soar discreta está sendo minado tanto pelas declarações agressivas da Coréia do Norte quanto pelas novas evidências de que o país está avançando para a produção. Na sexta-feira, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, que enfureceu a Casa Branca ao questionar as evidências sobre o Iraque, expressou graves preocupações com a Coréia do Norte.
A situação na Coréia do Norte "é atualmente a ameaça mais séria e mais imediata ao regime de não-proliferação nuclear", disse ele de seu quartel-general em Viena, Áustria. Não se sabe se ele estava ciente das novas evidências quando se pronunciou. A posição da Coréia do Norte em relação ao seu programa nuclear é muito diferente da posição do Iraque. Após o governo norte-coreano ter expulso os inspetores da Aiea em 31 de dezembro, seu governo reconheceu -até mesmo se gabou- de seu programa de armas nucleares. O governo Bush suspeitava que algumas das alegações eram apenas blefe, um esforço da Coréia do Norte para forçar o mundo a lhe ajudar em seus termos em troca de um novo congelamento, ou até mesmo o desmonte, de seu programa. Bush chamou os esforços do país de "chantagem", e disse que não cederia.
Mas nos bastidores, as declarações norte-coreanas não foram ignoradas. As autoridades americanas de inteligência têm empregado recursos tremendos na solução do mistério: como a Coréia do Norte poderia alegar que reprocessou todas as suas 8 mil barras se a única instalação de reprocessamento conhecida, em Yongbyon, tem operado apenas esporadicamente? Na CIA e no Conselho de Segurança Nacional, altos funcionários há muito tempo expressam preocupação de que poderiam estar deixando passar algo, que uma segunda instalação poderia estar enterrada em alguma parte, apesar disto apresentar uma série de desafios técnicos. Tais temores foram acentuados pelos relatos da inteligência sul-coreana de que um de seus agentes -cuja confiabilidade é desconhecida- informou a existência de uma segunda instalação, a nordeste de Yongbyon.
A Coréia do Norte possui cerca de 11 mil a 15 mil instalações industriais militares subterrâneas, segundo uma estimativa da inteligência americana, e a liderança do país tem um histórico de construção de instalações em duplicata para capacidades importantes, como produção de tanques ou sistemas de comando e comunicações. "Se você seguir a lógica deles, se encontrarmos uma segunda instalação de reprocessamento, talvez haja ainda mais", disse uma autoridade americana. "É uma avaliação razoável, dada a tendência da Coréia do Norte de ter múltiplas instalações para cada aspecto crítico de sua infra-estrutura de segurança nacional". Lógica semelhante, é claro, levou as agências de inteligência americanas a algumas de suas conclusões sobre o Iraque. Mas a Coréia do Norte possui um programa nuclear bem mais sofisticado, construído ao longo dos anos inicialmente com a ajuda da China e da Rússia, e no caso da produção de urânio, do Paquistão. A China agora está plenamente envolvida na tentativa de apresentar uma solução diplomática que não venha a causar o caos em sua fronteira com a Coréia do Norte, ou um afluxo de refugiados. Uma alta autoridade chinesa, o vice-ministro das Relações Exteriores, Dai Bingguo, que tem longa experiência com a Coréia do Norte, passou um tempo incomumente longo -duas horas e meia- em reunião com o secretário de Estado, Colin L. Powell, e outras autoridades americanas na sexta-feira. Ele também se encontrou com Condoleezza Rice, a conselheira de segurança nacional, e com o vice-presidente Dick Cheney.
A questão é a exigência do governo de que a Coréia do Sul e o Japão participem de quaisquer negociações com a Coréia do Norte, que desejar lidar apenas com os Estados Unidos. Mas algumas autoridades do governo, especialmente no Pentágono, acreditam que as negociações, apesar de necessárias, no final provarão ser infrutíferas. Eles não acreditam que a Coréia do Norte aceitará abrir mão de todo o seu programa nuclear, a única carta que o país faminto dispõe para atrair a atenção do mundo. Bush tem dito que não acertará outro congelamento nuclear, como o que Clinton aprovou em 1994, e tem insistido que todas as instalações nucleares norte-coreanas sejam desmontadas.
Bush também está sob crescentes críticas por ter permitido que o problema crescesse demais enquanto lidava com o Iraque, uma visão manifestada pelo ex-secretário de Defesa, William Perry. Mas não se sabe o que Bush poderá considerar em caso de fracasso da diplomacia. Ele já está organizando inspeções mais intrusivas de navios e aviões, na esperança de aumentar a pressão econômica sobre a Coréia do Norte. Mas para os planejadores militares, caso Bush decida que a segurança americana necessita de um ataque preventivo, qualquer confirmação de instalações adicionais de armas complicará enormemente o trabalho de localização destas instalações, já que não haverá certeza de que todos os locais importantes foram encontrados. Se quaisquer instalações secretas estiverem operando, sua produção de material de fissão já pode ter se espalhado em pequenas quantidades para vários outros locais. A CIA concluiu no início dos anos 90 que a Coréia do Norte pode já possuir duas armas nucleares rudimentares, mas ela nunca confirmou isto. Tais incertezas permanecem. O pior cenário é o de que os bastões de combustível usados já tenham sido removidos para uma instalação de reprocessamento desconhecida, onde o plutônio já tenha sido extraído e enviado para outras partes do país em pacotes e 5 a 8 quilotons para produção de armas.
Em setembro de 2005 a Coréia do Norte comprometeu-se a pôr fim a seu programa de armas nucleares e a livrar-se de seu arsenal proibido, em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos e de seus vizinhos, e de fornecimento de petróleo e energia. Pyongyang afirmou também sua intenção de readerir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). No entanto, numa manobra de recuo, Pyongyang declarou só cumprir o acordado se receber um reator nuclear para fins civis, pedido ainda não aprovado pelos EUA. O acordo com Pyongyang foi elogiado, mas recebido com ressalvas por Washington e foi alcançado depois de três rodadas fracassadas de negociações entre o governo norte-coreano e o grupo de cinco países que o mantém sob pressão: EUA, China, Coréia do Sul, Japão e Rússia. Segundo os termos negociados, a Coréia do Norte poderia, no futuro, ter um programa civil de energia nuclear se reconquistar a confiança internacional. Essa cláusula foi possível por causa da pressão conjunta de Rússia, Coréia do Sul e China, cuja posição acabou prevalecendo sobre a de EUA e Japão, contrários à concessão. O estopim da crise em 2002 foi a acusação dos EUA de que a Coréia do Norte tinha um programa nuclear bélico secreto. Uma das garantias dadas a Pyongyang foi que os EUA não mantêm armas nucleares na Península Coreana nem têm intenções de invadir a Coréia do Norte. Washington e Tóquio concordaram em reatar relações diplomáticas com o regime norte-coreano.