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"Despertai!" g83 8/7 20-5
Pode algo ser feito para salvar os saltos? Essa pergunta foi feita ao presidente João Figueiredo durante sua visita à gigantesca Usina Hidrelétrica de Itaipu, em setembro de 1982.
"Se eu salvar Sete Quedas, o que vou fazer com aquela tremenda construção de Itaipu?", apenas serviu para confirmar que os dias dos saltos estavam realmente contados.
Itaipu (que significa "pedra que canta", em tupi-guarani) foi sem dúvida uma fonte de divergências entre empresários e ecologistas. Do ponto de vista do Brasil, que gastava 10 bilhões de dólares por ano em importações de petróleo, "Itaipu é mais do que apenas mais um projeto de energia, é um símbolo de um sonho brasileiro de desenvolvimento". Contudo, teve de se pagar um preço. O desaparecimento do Salto das Sete Quedas.
O Salto das Sete Quedas, no poderoso rio Paraná, não deve ser confundido com sua vizinha mais famosa e espetacular, as Cataratas do Iguaçu, localizadas no rio Iguaçu, afluente do Paraná. Sobre Sete Quedas a Encyclopaedia Britannica diz: O rio esculpiu uma garganta de 2 milhas [c. 3 km] através do basalto vermelho. . . . O resultado é uma visão estupenda, embora não muito bem conhecida. O rio, que se espraia formando uma lagoa de 3 milhas [c. 5 km], subitamente se comprime entre paredes de fendas de apenas 300 pés [c. 90 m] de largura. Em resultado, a água borbulha num ensurdecedor crescendo, que pode ser ouvido a uma distância de 20 milhas [c. 30 km], através de vários canais e umas 18 cataratas, num desnível total de aproximadamente 300 pés [c. 90 m]."
A quantidade de água que se precipita sobre sua borda de 4,8 km de comprimento torna-o o maior do mundo em volume, segundo o Daily Post, citando o Livro Guiness de Recordes Mundiais (em inglês). Moradores locais chamam-no de "o lugar onde o Paranazão se zanga"!
Em 13 de outubro de 1982, o canal de desvio que conduzia as águas do rio Paraná durante os anos da construção da barragem foi fechado. O rio começou a crescer, lentamente de início, mais tarde, porém, a tanto quanto um metro por hora. Cinco dias depois, 150 km rio acima, os efeitos das águas crescentes começaram a se fazer sentir em Sete Quedas. Com seu ruído ensurdecedor gradativamente diminuindo, uma por uma a série de saltos desapareceu sob o lago que se espraiava, deixando apenas pequenas corredeiras indicando a localização do que havia sido uma das raras belezas da natureza. Por fim, até mesmo as corredeiras serenaram, tornando-se parte de um lago enorme e tranqüilo espraiando-se sobre os campos.
O novo lago de Itaipu, situado na fronteira Brasil-Paraguai, tem 130 m de profundidade e cobre uns 800 km2 de terras agrícolas e 600 de floresta virgem. Um estudo preliminar revelou que na área existiam pelo menos 117 espécies da flora subtropical, 90 espécies de peixes, além de dezenas de espécies de vida animal, incluindo onças-pintadas, antas, porcos-espinhos e veados.
Junto com as quedas, muitos sítios históricos e arqueológicos foram sepultados no seu túmulo aquoso. De maior preocupação eram as 100.000 pessoas, cujas terras haviam sido desapropriadas para o projeto, que tinham de ser transferidas e estabelecidas em algum lugar. Todos esses eram fortes argumentos para os que se opunham à construção da barragem de Itaipu.
Por outro lado, os defensores do projeto sustentavam que nenhum desses argumentos era suficientemente forte para justificar adiar a construção. Seus argumentos: Os custos de desapropriação seriam mínimos e incluídos no custo geral da barragem. Seriam feitos esforços especiais para capturar animais e transferi-los para reservas especiais criadas para esse fim. O vasto lago que seria formado atrairia depois mais turistas do que as Sete Quedas jamais atraíram. E quanto à perda dos saltos, estamos apenas transferindo os saltos daqui para a barragem, 150 km abaixo, com a vantagem de que ali produziremos energia. E, naturalmente, o mais forte argumento era a necessidade de uma nova fonte de energia para contrabalançar o enorme custo do petróleo importado. "Itaipu é uma necessidade inevitável num país que depende da importação de petróleo."
Como disse Veja, "no choque entre o progresso e a natureza, ela perde inapelavelmente". Conseqüentemente, em 1973, deram-se os passos para se empreender a construção do que seria a maior usina hidrelétrica do mundo. Aproximadamente dez anos depois o projeto de construção foi terminado. E no dia 5 de novembro de 1982, acionaram-se os comandos abrindo as comportas, permitindo o rio Paraná retornar ao seu curso normal após a formação do lago atrás da barragem. A instalação das turbinas e dos geradores viria depois.
A usina hidrelétrica teve sua origem lá em 1966, quando representantes do Brasil e do Paraguai assinaram um documento histórico que iniciou estudos resultando na criação de um consórcio internacional, a Itaipu Binacional, e estabeleceu o seu programa de atividades.
Segundo o cronograma, 1973 a 1975 foram gastos com a instalação da entidade binacional; a construção da barragem e da central hidrelétrica foi de 1976 a 1982 e, por fim, a instalação das últimas unidades geradores será por volta de 1988. Tanto brasileiros como paraguaios participariam na obra, no pagamento dos custos e no uso da energia a ser produzida. A construção terminou dois meses antes do prazo. Diz um folheto publicado pela Itaipu Binacional: "A obra de Itaipu constitui o maior empreendimento Binacional que registra a história, contribuindo poderosamente para dinamizar a economia dos dois países e estreitar ainda mais os laços de fraternal amizade que unem Brasil e Paraguai."
Isso não significa que não houve problemas. Um dos primeiros problemas tinha a ver com a futura produção elétrica da usina, então em seus estágios de planejamento. O contrato binacional inclui uma cláusula destinando aos dois países uma igual distribuição da energia produzida. Qualquer excedente de energia não utilizada pelo Paraguai poderia ser comprada e usada apenas pelo Brasil. Contudo, o Paraguai usa corrente de 50 Hertz, ao passo que o Brasil usa de 60 Hertz.
Após muitas discussões foi finalmente decidido que nove dos geradores da usina produziriam corrente de 50 Hertz e nove de 60 Hertz. Qualquer eletricidade comprada pelo Brasil da excedente do Paraguai seria convertida para corrente direta para transmissão aos centros industriais do Brasil e daí reconvertida para 60 Hertz. Essa divisão resolveu o problema, mas ao custo de 450 milhões de dólares adicionais. Um problema relacionado foi o preço que o Brasil pagaria por tal compra de energia elétrica.
O contrato original dizia que seria a um "preço justo". O jornal "ABC", de Assunção, apresentou o ponto de vista paraguaio no sentido de que o preço deveria ser atualizado. Originalmente calculado em 2 bilhões de dólares, disparou para mais de 14 bilhões de dólares com a inflação.
Tudo relacionado com o projeto era em escala gigante. No seu auge, 23.983 brasileiros e 14.442 paraguaios trabalhavam dia e noite em turnos de 11 horas. O intervalo de uma hora para a troca de turmas era usado para as explosões de dinamite, preparando o trabalho para a próxima turma. Eram usadas mensalmente 500 toneladas de dinamite. Incríveis 55 milhões de toneladas de terra e concreto foram usados para construir a barragem, concreto suficiente para construir 200 estádios do tamanho do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro.
O ferro usado daria para construir duas vezes a Torre Eiffel. A parede de concreto tem "dois terços da altura da Torre Eifel, cercada por uma floresta tropical povoada de macacos, cobras e papagaios", alongando-se para ambos os lados em forma de um "U" aberto, numa extensão de 8,85 km no topo. Para dissipar o calor produzido à medida que o concreto se assentava todo ele era pré-refrigerado a 6°C numa unidade especial de refrigeração. Os enormes tubulões através dos quais a água cairá para girar as turbinas têm 10,5 m de diâmetro e 130 de comprimento, fabricados com chapas de ferro de 6 cm de espessura. Como disse Veja, a barragem servirá qual gigantesca lápide para Sete Quedas, sepultadas para sempre a 150 km de distância.
As primeiras das 18 (de 20) turbinas e geradores estavam programados para começar a operar no início de1983. A fim de dar publicidade ao tamanho gigantesco do primeiro gerador, foram tiradas fotografias de uma orquestra sinfônica de 80 componentes sentados e tocando dentro de sua esfera, com amplo espaço para todos os músicos. O título dizia: "Ouverture de Itaipu!" O rotor de 300 toneladas para o gerador teve de ser transportado 1.300 km, de São Paulo, onde foi construído, até Itaipu, por meio de um transporte especial.
A carreta usada tinha 32 eixos com 256 rodas e era puxada por quatro enormes cavalos mecânicos em fila indiana, a uma velocidade de 5 km por hora. A viagem, que levou 60 dias, havia sido planejada dois anos antes, exigindo reforçar-se 18 pontes e viadutos ao longo do trajeto. O eixo de 160 toneladas para o gerador foi construído no Japão e transportado separadamente.
As obras de construção provocaram na região uma enorme convergência de famílias de trabalhadores. A vizinha cidade de Foz do Iguaçu teve sua população aumentada de 34.000 para 132.000 em quatro anos, com seus problemas resultantes. Foram efetivados projetos especiais de residência, com mais de 9.500 casas; foram construídos quatro hospitais, cinco clínicas e suficientes escolas para 13.000 alunos, além dos necessários postos de abastecimento e lojas.
Segundo noticiado, os que trabalhavam no canteiro de obras recebiam gratuitamente, além de seu salário, moradia, assistência médica, escola e acesso a clubes recreativos. Uma olhada no cardápio diário ajuda a avaliar a magnitude do projeto. No seu auge, o restaurante dos trabalhadores consumia diariamente 4 toneladas de arroz, 1,3 tonelada de feijão, 5,5 toneladas de hortaliças e 5 toneladas de carne.
Em meio a toda essa monumental atividade, Itaipu Binacional se lembrou de sua promessa de preservar a flora e a fauna da região do lago. Essa operação à parte foi rotulada de "mymba kuera" ("pega bicho", em tupi-guarani). Uma equipe especial de pessoal selecionado, de 156 membros, foi treinada dois anos antes para identificar as muitas espécies de animais e também para manejar ganchos, redes, laços, armadilhas e armas anestésicas, bem como para preparar jaulas para animais e caixotes para cobras e aranhas.
Foram preparadas antecipadamente áreas permanentes de refúgio, com pessoal treinado em alimentar os animais e zelar por eles durante seu período de adaptação ao novo habitat. Esse pessoal foi dividido em grupos e equipado com 17 barcos a motor, 15 caminhões e até mesmo helicópteros. Tinham de estar preparados para executar sua tarefa de resgate num período mínimo de tempo.
Sabia-se que nas duas semanas em que o lago gigante se formasse surgiriam numerosas ilhas pequenas, enquanto as águas subissem. E os animais, naturalmente, procurariam abrigo nessas ilhas. Contudo, à medida que o nível da água aumentasse, a maioria dessas ilhas seria por fim coberta pela água, afogando os animais. A tarefa de resgate teria de ser executada enquanto as ilhas ainda não estivessem submersas.
Segundo contagem real, formaram-se 667 ilhas pequenas, mas apenas 44 dessas sobraram quando a água atingiu seu nível máximo. Logo nos primeiros dias, suficientes animais haviam sido resgatados para se "lotar uma arca de Noé", e, quando a operação "pega bicho" estava na fase final, cerca de 9.200 animais haviam sido capturados e encaminhados para as reservas especiais.
Quanto à vida vegetal, o departamento do meio ambiente da Itaipu Binacional reuniu amostras de 110 espécies de palmeiras, abacaxis silvestres e plantas ornamentais. Incluíram-se várias espécies de orquídeas, três das quais existentes apenas naquela área. Em vista disso, muito da flora local seria também preservado. Como disse certo porta-voz, oferecemos "um cala-boca aos ecologistas que nos acusavam".
Em marcha, também, estavam os 100.000 moradores da região. Meses antes da inundação do lago, viam-se famílias partindo de caminhão, de carroça ou a pé, levando para sua nova moradia tudo o que era de valor. Em alguns casos casas inteiras foram demolidas, em outros aproveitaram-se apenas as portas e as janelas. Algumas famílias levaram até mesmo os restos mortais de seus entes queridos, para sepultá-los em outro local. Todos os cemitérios foram esvaziados, sendo que os corpos não reclamados foram também reenterrados em outros cemitérios.
Mesmo os peixes não ficarão imunes aos efeitos da barragem e do recém-formado lago. Antes da construção, especialistas da Itaipu Binacional encontraram 129 espécies de peixes no rio Paraná, alguns vivendo só acima das quedas, outros somente abaixo. Com a formação do lago e a mudança no movimento da água, alguns peixes terão de se adaptar ao novo ambiente. Afirma-se que o obstáculo natural imposto previamente pelas quedas será simplesmente transferido águas abaixo, até a barragem, de modo que a reprodução de peixes não será inibida pela mudança no meio ambiente. Contudo, para dar tempo para que os peixes se adaptem ao seu novo habitat, toda a pesca no lago foi proibida por um ano.
O dia 5 de novembro de 1982 veio e passou. O poderoso Paraná corre normalmente de novo, mas sem Sete Quedas. Em seu lugar, mas águas abaixo, está a sua enorme "lápide" de concreto. A Indústria venceu implacavelmente, e a Natureza perdeu de novo. Mas a controvérsia continuou. O Estado de S. Paulo, num editorial, analisou a controvérsia existente em nome do "Progresso". Num lado figura a Natureza, com toda sua beleza e variedade; no outro, a "deusa Tecnocracia". Segundo o editorial, essa última a tudo muito bem explica e justifica, com números, cálculos, pesquisas, estatísticas, mas não consegue dar uma resposta convincente, aceitável, aos que persistem em fazer a singela pergunta entalada na garganta: "Isso é, realmente, necessário?"
Curiosamente, expressou-se preocupação quanto à mudança nos padrões climáticos. Conforme noticiado, observousse mudanças na pressão atmosférica. Crescente umidade, ventos mais fortes, chuvas constantes numa grande área no sul do Brasil e em países vizinhos. As incomuns violentas chuvaradas em janeiro e fevereiro que paralisaram a cidade de São Paulo e causaram dano à lavoura são atribuídas por alguns à existência do novo lago. Outros são igualmente veementes na negação de que o lago pudesse provocar alguma mudança nos padrões climáticos. Ninguém sabe com certeza. Mas, uma coisa é certa: O homem tem muito a aprender quanto ao delicado equilíbrio ecológico na natureza.
Outra coisa é certa: Sete Quedas desapareceram e vivem apenas na memória. O acima citado editorial expressa os sentimentos de muitos no poema-endecha do poeta brasileiro Drummond, que diz:
"Sete quedas por nós passaram,
E não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
E todas sete foram mortas,
E todas sete somem no ar,
Sete fantasmas, sete crimes
Dos vivos golpeando a vida
Que nunca mais renascerá."
Em seu lugar, estão as 18 turbinas da "pedra que canta", Itaipu, que, uma após outra eventualmente começarão a rodar, trazendo incontáveis benefícios a milhões de pessoas. Sem dúvida, elas também conquistarão a afeição de muitos, como conquistaram as Sete Quedas, os saltos que desapareceram.