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Pierre Le Hir-Le Monde-19.05.2000
O césio 137 disseminado sobre a Europa pela nuvem de Chernobyl é mais persistente do que os cientistas pensavam. Nas regiões mais afetadas, esse elemento radioativo vai continuar a contaminar por muito tempo ainda a cadeia alimentar. Esta é a conclusão de um estudo realizado por equipes inglesas e holandesas, publicado na edição de 11 de maio de 2000 da revista britânica "Nature".
O trabalho vem confirmar uma pesquisa norueguesa que havia sido apresentada em 1999, a qual chegava a uma conclusão similar a partir de análises realizadas sobre peixes de um lago escandinavo. Desta vez, a concentração de césio 137 foi medida em plantas e peixes de lagos do condado de Cumbria, noroeste da Inglaterra.
Medições feitas anteriormente, nos anos que seguiram a explosão do reator ucraniano, em 26 de abril de 1986, haviam mostrado uma rápida diminuição da quantidade dessas partículas radioativas encontradas nos vegetais, na água ou nos peixes: essa "biodisponibilidade" havia diminuído pela metade no decorrer de um período de um a quatro anos.
Os especialistas haviam então aventado hipótese de que o césio transportado pela nuvem de Chernobyl, uma vez depositado no solo (pela chuva ou pelo vento), havia se fixado no húmus, onde ficava preso à argila. Ao projetar a curva da radiação, os pesquisadores fizeram a suposição de que a transferência da radiação nuclear nas plantes, pelas raízes; ou na água, pela correnteza; e em definitivo, na cadeia alimentar, teria praticamente desaparecido após uma década.
As recentes medições revelam que o processo vem se desenvolvendo de forma bem diferente. A diminuição do teor em césio 137 das amostras vem ocorrendo num ritmo muito mais lento: o ritmo do decréscimo não passa mais de 50% para um período de 30 anos -o que corresponde exatamente à taxa de decréscimo espontâneo (redução da radioatividade) do césio 137.
"A natureza nos ajudou nos primeiros anos, fixando a radioatividade no solo. Mas essa ajuda acabou. Um equilíbrio se estabeleceu entre a capacidade de retenção do solo e a faculdade de migração do césio. De agora em diante, só podemos contar com o processo de decréscimo radioativo natural", comenta Henri Métivier, do Instituto de Proteção e Segurança Nucleares (IPSN).
A descoberta deste fenômeno não traz nenhuma conseqüência para a França, onde, segundo relatório do IPSN em 1997, "na maior parte do território, a contaminação proveniente das conseqüências do acidente de Chernobyl diminuiu a tal ponto que se tornou cada vez mais difícil encontrar seus sinais". Na maioria dos casos, a radioatividade em césio 137 diminuiu até alcançar níveis inferiores aos que eram medidos antes da catástrofe de Chernobyl, e que resultavam dos testes de armas atômicas na atmosfera.
No entanto, algumas zonas montanhosas e florestais que foram mais "servidas" do que outras, em particular a Córsega, Vosges, o Jura e os Alpes, com destaque para a região do Mercantour, continuam a apresentar uma radioatividade muito acima da média francesa. Nessas áreas, os animais selvagens e os cogumelos podem estar claramente acima do limite de 600 becquerels por quilo (Bq/kg), determinado pela União Européia, para os gêneros alimentícios comercializados: em 1996, nas Vosges, um javali abatido por caçadores apresentou níveis de radiação acima de 1.600 Bq/kg.
No mesmo ano, a associação independente CRII-Rad havia assinalado naquela região de montanhas concentrações acima de 368 mil Bq/kg de campo ou de floresta. Mas o IPSN garante que esses pontos críticos são, ao mesmo tempo, "de tamanho muito reduzido e pouco acessíveis".
As conclusões dos estudos são mais preocupantes para os países escandinavos e a metade norte do Reino Unido, muito mais afetados pelos depósitos de partículas radioativas e cujos solos ácidos, explica Henri Métivier, fixam menos os elementos radioativos do que as rochas cristalinas da região das Vosges ou dos Alpes.
No Reino Unido, onde o limite autorizado para os alimentos é de 1.000 Bq/kg, cerca de 400 criações de ovinos, correspondendo a um rebanho total de 230 mil ovelhas, são objeto de restrições para abate e venda, já que uma certa quantidade desses animais apresenta contaminação acima da norma.
O estudo dos pesquisadores alerta para que medidas restritivas sejam aplicadas durante um período de 30 anos após o acidente de Chernobyl -ou seja, até 2016, tempo considerado necessário para que a radioatividade do césio 137 tenha espontaneamente diminuído pela metade.
Bastaram algumas horas, depois da explosão do reator 4 da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, no dia 26 de abril de 1986, para tornar inabitáveis e incultiváveis durante dezenas de anos cerca de 40.000 km2. O iodo, devido a seu curto período radioativo, desapareceu rapidamente, e raras são as medidas dos índices de contaminação. Mas, desde 1989, observa-se na região um aumento dos cânceres da tireóide, em particular nas crianças, que tinham menos de 5 anos no momento do acidente.No restante da Europa, constata-se sempre uma radioatividade superficial, principalmente devido ao césio 137.
A nuvem radioativa, empurrada pelos ventos, deslocou-se para a Rússia e a Escandinávia, contaminando zonas ao sul de Moscou, no sul da Finlândia, na Suécia e na Noruega. Alguns dias mais tarde, a nuvem sobrevoou o centro e o sul da Europa (República Checa, Áustria, Suiça, Itália e Grécia), bem como algumas regiões do Reino Unido. A contaminação é mais grave nas regiões onde choveu durante a passagem da nuvem. Quatorze anos após a catástrofe, alguns produtos ainda estão sob vigilância: a carne de carneiro no Reino Unido ou o peixe de alguns lagos da Noruega e Suécia.
Os custos financiados pelos países mais diretamente afetados são extremamente elevados. Entre 1986 e 1991, a União Soviética destinou US$ 5,7 bilhões à reparação dos estragos. Ucrânia, Bielorússia e Rússia gastaram depois cerca de US$ 20 bilhões. As conseqüências de Chernobyl absorvem regularmente mais de 20% do orçamento do Estado bielorusso e até 10% do orçamento ucraniano.
Entre 7 milhões e 9 milhões de pessoas vivem nos territórios reconhecidamente contaminados dos três países - pelo menos 155.000 km2 (um terço do território francês). Somente a Bielorússia sofreu cerca de 70% da descarga radioativa. Na Ucrânia, foi estabelecida uma zona de exclusão de 30 km em torno de Chernobyl e toda a população dessa área foi retirada.
Ao todo, cerca de 400.000 pessoas tiveram de ser deslocadas e acomodadas em outro lugar. Finalmente, entre 600 a 800.000 pessoas participaram da "limpeza" da zona do acidente.
O custo total dos danos em 30 anos é estimado em várias centenas de bilhões de dólares. No contexto de crise econômica aguda, os três Estados afetados não conseguem enfrentar nem mesmo as necessidades mais urgentes. "Em nosso orçamento para o ano 2000, só chegamos a desbloquear o equivalente a US$ 300 milhões, embora seja necessário US$ 1,3 bilhão", declarou Vladimir Holosha, vice-ministro de Negócios Urgentes da Ucrânia.
Em Borodyanka, um distrito contaminado onde 6.000 pessoas tiveram de ser reassentadas, Vladimir Krasnoschyok, assessor do prefeito, explicou como 3.000 pessoas (de uma população de 56.000) são reconhecidas como inválidas, de acordo com a legislação, por causa das conseqüências do acidente de Chernobyl, essencialmente por problemas de tireóide, estômago e leucemia.
Falta dinheiro para pagar as aposentadorias e para garantir às vítimas o tratamento assegurado pela lei. Apenas 80% das 10 mil crianças e 7% dos 5.500 adultos com direito a isso conseguem continuar os tratamentos termais. As declarações oficiais tentam manter o equilíbrio entre os objetivos de segurança e os da ajuda às vítimas. Mas a comparação dos números é indiscutível.
O Chernobyl Shelter Fund, estabelecido depois de 1995 pelo Grupo dos Sete (G-7) e administrado pelo Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (Berd) para a reconstrução do sarcófago do reator destruído, já reuniu mais da metade dos US$ 758 milhões exigidos para a primeira fase. Mas o Chernobyl Trust Fund, estabelecido em 1995 pela ONU para financiar um programa humanitário, avaliado em US$ 800 milhões, só arrecadou até hoje US$ 1,5 milhão. Fora do sarcófago, os países ocidentais gastaram cerca de US$ 2 bilhões.
As motivações da comunidade internacional são evidentes. Embora Chernobyl tenha revelado a dimensão global do risco nuclear, o reator 3 da central ucraniana e outros 13 do mesmo tipo (11 na Rússia e 2 na Lituânia) continuam em serviço. O público conhece esse risco. E a indústria nuclear ocidental - que aliás assume a maior parte dos orçamentos de assistência - está ciente de que não sobreviveria a um novo acidente no Leste Europeu. Os dois pontos essenciais para a segurança da Ucrânia - fechamento de Chernobyl e reconstrução do sarcófago - estão sendo regulamentados de acordo com os termos do documento assinado em 20 de dezembro de 1995 entre o G-7, a União Européia e a Ucrânia.
Por uma parte, a conferência de doadores, organizada em Berlim nos dias 4 e 5 de julho de 2000, estabeleceu o orçamento da primeira fase da reconstrução do sarcófago. Por outro lado, no dia 5 de junho, o presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma, comprometeu-se a desativar definitivamente o reator 3 até 15 de dezembro de 2000.
"Rigor científico" oculta maior parte dos malefícios da radiação
Os projetos internacionais incluem a extensão da rede de centros de reabilitação psicológica e social nos três países afetados por Chernobyl: Ucrânia, Rússia e Bielorússia. Desenvolvidos pela Unesco a partir de 1994, cerca de dez centros foram inaugurados. Oksanna Garnets, coordenadora do Programa Chernobyl da ONU na Ucrânia, não se cansa de defender a utilidade deles. "As pessoas sofrem de um complexo de vítimas", explica. "O objetivo dos centros não é o de dar-lhes assistência, mas o de ajudá-la a reconstruir suas próprias vidas."
Em Borodyanka, o centro desenvolve serviços de aconselhamento, de animação e de informação médico-social às populações em dificuldades. Em Slavutich, a cidade construída depois do acidente a 40 km de Chernobyl para os empregados da central nuclear, o centro enfrenta um problema específico: a angústia da população ante a perspectiva do fechamento do reator.
A maioria dos programas de assistência da ONU não foi posta em prática até hoje. Em 1993, as Nações Unidas deploraram que "o interesse da comunidade internacional pelos efeitos do acidente se traduza principalmente na investigação". Esta pesquisa não conduz ao reforço da ajuda às populações.
Seu principal desafio é defender a reputação da energia nuclear: trata-se de evitar que alguns efeitos sejam atribuídos "erradamente" às radiações.
A mensagem é clara: sim, as pesquisas demonstraram um aumento muito importante dos cânceres da tireóide em crianças e adolescentes. Elas registram cerca de 1.800 casos imputáveis ao acidente. Para todos os outros efeitos observados, embora sua ligação com a radiação possa ser suspeita em certos casos, isso não está demonstrado cientificamente. Estas são, por exemplo, as conclusões da conferência "Uma década depois de Chernobyl", organizada em abril de 1996 pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e Organização Mundial de Saude (OMS). Muitas vozes se levantam para denunciar a "redução da verdade à clandestinidade" e criticar a atitude, extremamente tímida, da OMS.
Esta última está ligada à AIEA por um acordo assinado em 1959. O acordo prevê uma consulta recíproca para a "salvaguarda do caráter confidencial de alguns documentos", quando uma organização se dedica a um campo que apresentar "um interesse maior para a outra parte". Agência de carater autônomo, a AIEA tem por missão "ampliar a contribuição da energia atômica à paz, à saúde e à prosperidade no mundo". Desde 1986, Mikhail Gorbáchov agradecia à AIEA "por sua atitude objetiva", por oposição à "malevolência" dos Estados Unidos ou do G-7.
As discordâncias são cada vez mais manifestas na ONU. Interrogado sobre os problemas de saúde das pessoas afetadas pelo acidente, Yuri Subbotyn, coordenador dos programas da OMS na Ucrânia, respondeu mecanicamente que o câncer da tireóide é "a única evidência científica". Mas acrescentou que outros problemas podem sobrevir. denunciando a "falta de apoio" aos programas a respeito das afeções não-tireoidianas.
A OMS tenta sair hoje desse impasse estudando o impacto psicológico da exposição às radiações. Para Keith Baverstock - que, em março, anunciou um novo programa neste sentido - a experiência mostra que o enfoque da AIEA, concentrado nos aspectos técnicos do risco, é "insuficiente". Segundo Baverstock, os efeitos psicológicos da contaminação não são diretamente mensuráveis.
Para o Escritório de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha), a prioridade é aliviar os efeitos sobre a população. É por isso que seu Programa Chernobyl entra em conflito com a comunidade dos especialistas oficiais. Segundo esses últimos, a ajuda às vítimas não deve levar a opinião pública a equivocar-se a respeito das "conseqüências limitadas" que a ciência atribui ao acidente.
O Comitê Científico da ONU para os Efeitos da Radiação (Unscear) denunciou a atitude do Ocha.
Em novembro, publicará um relatório contendo um anexo sobre Chernobyl, do qual obtivemos uma versão preliminar. O documento assegura que, com exceção dos cânceres da tireóide em crianças, "não existem provas a respeito de um efeito maior da radiação (consecutivas ao acidente) sobre a saúde pública". O Unscear não contesta que numerosas pesquisas medem um aumento de problemas de saúde diversos. Mas denuncia sistematicamente suas "fraquezas metodológicas"que impedem a conclusão de maneira científica no tocante a uma ligação com a radiação.
O relatório deduz naturalmente que, "do ponto de vista radiológico", deveriam prevalecer as "perspectivas globalmente positivas para a saúde futura". Numa carta a Kofi Annan, o presidente da Unscear, Lars Holm, ataca a brochura publicada pelo Ocha (cuja apresentação é assinada por Annan), repetindo que "a grande maioria da população não deve temer conseqüências graves para a saúde" e conlui que o Ocha "aumenta os temores da população afetada, em lugar de trazer-lhe apoio".
A coordenadora do Programa Chernobyl, Caroline McAskie, não depõe as armas. Ela dirigiu uma carta ao governo japonês, anfitrião da reunião do G-8, na qual pede que "alguns percentuais" do orçamento da assistência técnica para a segurança sejam destinados ao Fundo de Assistência Humanitária. A carta ainda está sem resposta. Um pedido semelhante, durante a conferência sobre o sarcófago do reator em Berlim, foi simplesmente rejeitado pelos organizadores da reunião. Uma pessoa ligada ao Programa Chernobyl vê nisso "o peso do lobby nuclear" que, em nome do "rigor científico", tenta abafar os efeitos da catástrofe.
Ajuda não evita o fracasso humanitário
Pela primeira vez, o presidente Leonid Kuchma não vinculou o fechamento da usina ao financiamento internacional para concluir a instalação de dois reatores nucleares K2/R4 em Khmelnitsky e Rovno, a fim de "compensar" a perda de produção de Chernobyl. A Ucrânia não tinha de fato nenhuma outra escolha, por duas razões pelo menos: as exigências de segurança impõem a desativação do reator. No início do ano, as autoridades de segurança ucranianas limitaram o funcionamento do reator a 200 dias e fixaram seu fim definitivo para 15 de dezembro de 2000.
O financiamento ocidental do K2/R4 (US$ 1,5 bilhão) não parece mais garantido. A Alemanha principalmente tornou-se reticente. O Berd - cuja participação sob a forma de um empréstimo específico parece indispensável - também continua reservado. Além disso, as autoridades ucranianas sentem uma dificuldade crescente para justificar a necessidade do K2/R4: em vez dos 3% a 5% oficiais, o reator nº 3 de Chernobyl só garantiu 1,7% da produção elétrica nacional em 1999. Uma participação desprezível enquanto a crise econômica se exprime por uma queda constante do consumo de energia. Além disso, a modernização do setor, ainda não realizada, traria substanciais economias de energia.
Mas os sucessos anunciados da ajuda internacional para a segurança não devem encobrir os fracassos no terreno humanitário. A questão é tão delicada que todos os números são contestados. Entretanto, as declarações oficiais das autoridades coincidem com grande número de estudos e testemunhos que indicam uma degradação importante nas condições sanitárias, psicológicas e sociais das populações afetadas. Embora as atenções se concentrem freqüentemente na mortalidade, o que parece mais inquietante é a evolução das doenças. Segundo a comissão parlamentar sobre o meio ambiente no Parlamento ucraniano, o país registra anualmente 10 mil novos inválidos em conseqüência do acidente.
A intervenção das Nações Unidas foi tardia e durante muito tempo restrita a um trabalho de avaliação. No primeiro discurso em nome da União Soviética perante as Nações Unidas, no dia 14 de maio de 1986, Mikhail Gorbáchov, falando sobre o acidente, exigiu apenas um reforço da cooperação internacional para a segurança nuclear sob a égide da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU.
Mas foi apenas no dia 16 de abril de 1990 que a ONU recebeu da URSS e das Repúblicas da Ucrânia e Bielorússia uma proposta conjunta de resolução para uma cooperação internacional destinada a enfrentar as conseqüências do acidente: 131 projetos para um orçamento global de US$ 646 milhões.
Esta resolução, adotada por unanimidade no dia 24 de dezembro de 1990, aponta "um desastre radiológico e ambiental e uma situação de urgência sem precedentes".
O Fundo Chernobyl, criado para mascarar a ausência de orçamento próprio, só arrecadou US$ 1 milhão um ano mais tarde e a isso é preciso acrescentar US$ 8 milhões de doações bilaterais.
As Nações Unidas confirmaram seu compromisso por meio de resoluções sucessivas, adotadas todas por unanimidade, sendo a última delas em dezembro de 1999. Em 1995, a coordenação de um novo plano de assistência - US$ 800 milhões - foi confiada ao Escritório de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU.
Depois do fracasso de várias conferências de doadores, o programa foi reduzido a um conjunto de 60 projetos, para um orçamento de US$ 80 milhões. E hoje está reduzido aos nove projetos prioritários para os quais a ONU não chegou a obter dos doadores os US$ 9,5 milhões necessários. O fundo reuniu apenas US$ 400 mil, mais US$ 1,1 milhão em promessas de doações. Entre os países do G-7, somente os Estados Unidos aportaram uma contribuição.
O Programa Chernobyl da ONU compreende três projetos por país, financiados em parte pelas autoridades nacionais. Trata-se, por exemplo, de modernizar o Hospital de Gomel, na Bielorússia, ou de descontaminar estabelecimentos públicos, como creches e escolas, nessa região severamente afetada. Outros projetos referem-se ao necessário acompanhamento médico, como o diagnóstico da tireóide para 500 mil crianças russas e um programa de estudo dos distúrbios de saúde em filhos das pessoas expostas.
Na Europa do pós-Guerra, o carvão era a principal fonte de energia para a produção de eletricidade destinada à indústria.
Os sistemas de purificação das emissões eram inexistentes. A partir dos anos 60, quando o Ocidente reestruturou sua produção de energia, abandonando o carvão em favor do petróleo, do gás e da exploração nuclear, os países da Europa Central decidiram explorar seus próprios recursos: lignita, por exemplo, ou xistos petrolíferos de péssima qualidade e cujo teor de enxofre era bastante elevado.
As atividades industriais concentravam-se nas proximidades das minas de carvão, no chamado "Triângulo Negro" (as regiões fronteiriças da ex-Alemanha Oriental, República Checa e Sul da Polônia), amplamente responsável pela poluição atmosférica e também pelas precipitações e depósitos ácidos. Apesar dessa herança catastrófica, a situação melhorou ao longo da década de 90: as emissões de dióxido de carbono diminuíram sensivelmente.
É preciso ver nessa importante melhora o esforço conjugado da recessão econômica, das reestruturações que estão sendo realizadas pelas indústrias, da utilização de matérias-primas menos poluentes e da instalação de sistemas de filtragem das emissões. Mas várias décadas de poluição tiveram efeitos devastadores sobre os ecossistemas. A floresta, já fragilizada, continua a degradar-se cada dia mais. A acidificação dos solos pode também acarretar a liberação de alumínio e de metais pesados e contaminar as águas de superfície em determinados lugares.
No Norte da região, a Hungria, a República Checa, a Eslováquia e a Polônia conseguiram mais ou menos transformar seu instrumento de produção e, com com a ajuda de diversas organizações internacionais, introduzir medidas de proteção, cujo efeito mais espetacular é a nítida redução das emissões de poluentes.
Já nos países da parte meridional da Europa - Romênia, Bulgária, Albânia e ex-Iugoslávia - as preocupações com questões ambientais foram relegadas ao segundo plano. As ações práticas para modernizar as instalações industriais e controlar a emissão de poluentes ainda são muito raras, como nos veio lembrar a recente poluição catastrófica do Rio Tisza.
Longos períodos sem luz, temperaturas extremas e mecanismos de crescimento natural lentos: são muitos os elementos que transformam as regiões árticas em formidáveis "captadoras" de poluição.
A implantação de atividades industriais e militares danificou estes sistemas particularmente vulneráveis e acarretou, em alguns lugares, a destruição quase total do meio ambiente. A situação é catastrófica na parte ocidental da Península de Kola, nas ilhas da Nova Zemlya e na região de Arkangelsk e de Norilsk.
As principais responsáveis pela poluição do ar na região são as fábricas de celulose e os imensos "kombinats" metalúrgicos instalados para a exploração das jazidas de níquel, cobre e fósforo.
As emissões de dióxido de enxofre estão na origem de graves problemas de saúde pública. Essas emissões aumentam a cada ano (cerca de 600.000 t por ano na Península de Kola e aproximadamente 2.000.000 t por ano na região de Norilsk no fim da década de 80).
A vegetação está totalmente aniquilada num grande perímetro em torno dos centros industriais (em várias dezenas de millhares de hectares) e degradada em todo o restante da região. Essa região recebe também - e fixa - a poluição emitida na Europa Ocidental e transportada pelos sistemas atmosféricos.
A imensa floresta de coníferas, já afetada pelas chuvas ácidas, está igualmente ameaçada pela exploração excessiva ligada às indústrias de abate e transformação da madeira. Os solos, poluídos em grandes superfícies por meio das neves contaminadas, contêm taxas elevadas de metais pesados (cobre, níquel e zinco).
A qualidade das águas fluviais geralmente é medíocre. Não é raro encontrar nelas importantes concentrações de lignosulfonatos (produzidas pelas indústrias de celulose), amoníaco, fenóis e metanol. Os pequenos cursos de água da Península de Kola estão saturados de metais pesados: minas e fundições despejam suas águas servidas nesses regatos.
Desde o ínício da década de 80, a utilização maciça da energia nuclear civil e militar submete a região a uma nova ameaça. Foi no arquipélago de Nova Zemlya que foram realizados os testes atômicos considerados mais cruciais (ao todo, mais de uma centena entre os anos de 1955 e 1990). Com isso, grandes quantidades de resíduos radioativos, sólidos e líquidos, penetraram no Mar de Barents e no Mar de Kara.
A Frota do Norte, com seus submarinos e quebra-gelos nucleares - às vezes desarmados, mas contendo sempre seus reatores - é distribuída em várias bases ao longo da costa setentrional da Península de Kola, perto de Murmansk; a central nuclear de Polyarnyi é classificada como "perigosa" pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Por pelo menos 20 vezes, entre 1969 e 1988, os soviéticos fizeram explodir ali grandes cargas nucleares para a construção de obras públicas e a exploração de minérios. A maior parte dessas atividades não é mencionada nos relatórios oficiais e muito pouca coisa se sabe a respeito da contaminação radioativa da região.