Nem Tudo Está Sob Controle

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Nem Tudo Está Sob Controle

Dizer a verdade omitindo informações é uma arte desenvolvida também na área nuclear. Através de palavras empoladas, comparações, subestimações e apelo ao sobrenatural se constrói um mundo nuclear.

1- Sobre o leite contaminado por césio 137, proveniente do escape de material radioativo de Chernobyl, liberado para o consumo através de modificação do nível máximo de radioatividade aceitável pela Resolução da CNEN 07/86, elevando este nível de 37 becqueréis para 370 becqueréis: (Depoimentos à Curadoria de Justiça dos Consumidores do Rio de Janeiro)

1.1- "É fundamental constatar que a CNEN reconheceu explicitamente que o leite importado pelo Brasil está contaminado pelo material radioativo liberado pelo acidente de Chernobyl. Isso reveste-se de gravidade, pois, no nível do conhecimento atual, não há certeza absoluta sobre os efeitos das pequenas doses de radiação." Luís Pinguelli Rosa, físico nuclear, diretor da COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1.2- "Os níveis de contaminação medidos até agora, tanto pela USP como pela CNEN, não são suficientes para causar preocupação, embora sejam indesejáveis." Grupo de Estudos de Radiocontaminação do Ambiente, de Alimentos e de Seres Vivos/Universidade de São Paulo. Publicado em Ciência Hoje/Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, vol. 5 n° 28.

2- Estimulado pelo assunto acima, 2 pesquisadores abordam a falta de controle destes índices na água mineral: (Resposta a carta dos pesquisadores do Instituto de Química Rachel Lewinsohn, Departamento de Cirurgia/Universidade Estadual de Campinas)

"(...) A radioatividade no alimento é sempre prejudicial à saúde humana, sendo porém tolerada dentro de certos limites, o risco vai crescendo conforme a dose.(...)" Epaminondas S. B. Ferraz, Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. Publicado em Ciência Hoje, vol. 6 n° 36.

3- Milhares de pessoas poderão vir a sentir os desastrosos efeitos da radiação que escapou para a atmosfera devido ao acidente ocorrido em 26 de abril na usina nuclear de Chernobyl, afirmam os peritos. Segundo seus cálculos, cerca de 4.000 cânceres serão provocados pela precipitação de césio 137 proveniente do desastre de Chernobyl, resultando em até 2.000 mortes. Espera-se que calculadamente 24.000 pessoas contraiam anormalidades na tireóide por inalarem o iodo 131, o total aumentando para 120.000 entre os que ingeriram alimentos e leite contaminados. O câncer da tireóide poderia levar a mais de 2.000 mortes. Tais estimativas se baseiam na exposição breve à radiação, afirmam os pesquisadores. A exposição à radiação por três semanas, ou mais, afirmam eles, poderia aumentar o número de cânceres e de mortos em até quatro vezes! As populações da Europa Oriental, da Escandinávia, e da União Soviética são mencionadas como as que têm mais probabilidade de serem atingidas.

3.1- Programava-se matar pelo menos 38.000 renas na Noruega e na Suécia, em resultado do acidente nuclear de Chernobyl. Esses animais, que valiam de US$ 225 a US$ 300 cada um, são impróprios para alimentação devido aos altos níveis de radiação, depois de se alimentarem de líquen contaminado. "Isto será um duro golpe para os lapões, que criam mais de 600.000 renas nas áridas regiões árticas", noticia o jornal The Sunday Times, de Londres. Essa carne, de forte sabor, é popular na Escandinávia, e é exportada para países como a R. F. da Alemanha e o Japão. "É uma ameaça a toda a nossa subsistência", comentou um criador de renas.

3.2- Segundo o jornal soviético Pravda, a cidade ucraniana de Chernobyl, que já tem 800 anos, foi programada para ser totalmente nivelada, dois anos e meio depois de sofrer o pior acidente do mundo que envolvia uma usina nuclear. Afirma-se que tal medida é necessária porque a radiação tornou a cidade inapropriada para habitação humana durante décadas. O acidente de Chernobyl espalhou a radiação em escala mundial, e, segundo divulgado, matou 31 pessoas nas proximidades.

4- "Sabe-se que a noção de dose mínima tolerável, contestada há muito tempo, foi inteiramente superada por trabalhos recentes, segundo os quais todas as doses de radiações ionizantes são nocivas, sem que se possa estabelecer um limite abaixo do qual seriam inócuas. O problema é que a extrapolação em linha direta dos efeitos até um nível mínimo, subestima os efeitos de doses fracas repetidas, que seriam muito mais graves do que uma dose quantitativamente igual a sua soma." Publicado em La Nucléarisation du Monde, Ed. Gérard Lebovici, 1986.

5- "Todas as estimativas relativas ao caráter pernicioso da baixa radioatividade no ar e na água estão erradas, numa base de centenas, milhares de vezes." Ernest Sternglass, Instituto de Radiobiologia de Pittsburgh.

6- "Cada vez que uma experiência pode detectar fracas doses, constatou-se que os pontos experimentais correspondentes a essa investigação foram extrapolados de doses reais elevadas; se analisarmos teoricamente a situação, lembrando que a ionização é um fenômeno descontínuo, constata-se facilmente que não há dose limite." Professor Moscovich, Universidade de Orsay. Publicado na revista Projet/set.79, citado em "Anatomie d'un Nuage", Ed. Gérard Lebovici.

7- "Se admitirmos que uma só partícula atingindo um gene pode provocar um câncer, é necessário concluir que um milionésimo da dose considerada perigosa implica num risco um milhão de vezes menor -nunca um risco zero." Professor Bernard Cohen. Publicado no Le Monde, 13.06.1986.

8.1- "Os radiobiólogos tendem a crer que os níveis de tolerância atualmente aceitos são pelo menos duas vezes mais altos do que o ser humano pode realmente suportar."

8.2- "Alguns radiobiólogos restringem ainda mais os padrões... Se Radford estiver certo os níveis de tolerância à radiação deveriam ser limitados a pelo menos 1/10 dos níveis atuais. Contudo nem todos os radiobiólogos concordam com essa análise." Publicado em "The Worst Accident in the World on Chernobyl", The Observer-1986.

9- Sobre o acidente radioativo de Goiânia:

9.1- "Robert Gale, entretanto, disse que essas pessoas correm, um risco de contrair câncer muitas vezes menor do que um fumante. Mesmo no caso das pessoas atingidas diretamente pela radiação, os riscos são menores do que os perigos que ameaçam a saúde no dia a dia, como os acidentes de trânsito, afirmou." Publicado no Jornal do Brasil.

9.2- "Se até lá não houver nenhuma infecção, eles voltarão a ter uma vida normal, diz ele, ou quase normal, porque sempre haverá o fantasma do câncer, já que pessoas vítimas de radiatividade têm maior probabilidade de desenvolver a doença no futuro." Dr. Georgii Selidovkin. Publicado no jornal O Globo.

9.3- O que parecia ter sido um verdadeiro achado para dois catadores de ferro velho e de papel em Goiânia, Brasil, transformou-se num grave acidente nuclear, noticiou a revista Veja. Num prédio abandonado, os dois catadores encontraram uma caixa de chumbo que pesava cerca de 100 kg, e a rebentaram a marretadas para vender ao dono de um ferro-velho, Devair Alves Ferreira. No depósito de Devair, rebentaram ainda mais a peça e encontraram, dentro dela, uma pequena cápsula que tinha um brilho incomum. Mais tarde, a própria cápsula foi aberta, expondo uma pedra que soltava pó. O que eles não sabiam é que tal conteúdo era de césio 137 radioativo. "Ela soltava um brilho azul no escuro. Era bonita", disse Devair. Fascinado pela cápsula, tais homens a mostraram às suas famílias e amigos, expondo todos eles à radiação. De acordo com O Estado de S.Paulo, cerca de 244 pessoas foram por fim contaminadas pela radiação, pelo menos 20 delas gravemente. A esposa e a sobrinha (de 6 anos) de Devair foram as primeiras vítimas a falecer em resultado disso. Devido ao número de pessoas atingidas, o acidente é considerado o segundo mais grave acidente nuclear do mundo, depois de Chernobyl.

10- "Há algumas evidências de que efeitos genéticos da radiação constituem um fenômeno linear e uma das suposições fundamentais no estabelecimento de normas de proteção radiológica e no controle de atividade da radiação em programas de saúde pública tem sido de levar em conta o efeito linear da radiação. Portanto, é sempre suposto algum grau de dano quando a população é exposta à pequena quantidade de radiação. Esta suposição torna a tarefa de estabelecer normas de proteção a população à radiação muito ingrata, pois desde que o conceito de 'risco aceitável' é posto em jogo, é preciso estudar quanto risco é aceitável para um determinado benefício." Curso Básico de Proteção Radiológica Angra I/II/III.

11- "Experiments on mammals indicate that if a certain quantity of radiation is required to cause a specific effect, a lesser quantity of radiation to the same animal is required to again cause the effect, indicating the existence of some irreparable injury. Note that every injury is rapidly repaired at first, but there is an accumulated irreparable component.(...) Rule of Thumb: 90% injuries caused by ionizing radiation is repaired leaving 10% residue of accumulated irreparable damage." Robert E. Frankel, Radiation Protection for Radiologists Technicians

12- Uma mossa numa fonte radioativa e o reator de Chernobyl tem coisas em comum. Por que acontecem acidentes? Porque ninguém os espera!

"A concepção do reator não deixa de ser interessante. Ele utiliza óxido de urânio natural pouco enriquecido em urânio leve, material relativamente barato. A separação do combustível em muitos canais constitui um fator de segurança. (...) Embora pareça paradoxal, esta aparente segurança é, ela mesma, fonte de perigo. Familiaridade excessiva cria complacência e o pessoal encarregado da operação de reatores começa a perder a consciência dos perigos inerentes ao sistema. Foi o que descrevemos. Durante uma experiência aparentemente inócua, os encarregados do controle se deparam de repente com condições anormais de funcionamento, às quais não estavam acostumados. Não acreditaram, porém, que um reator sempre tão manso pudesse escapar do controle. Ademais, acharam que a baixa potência em que estavam operando representava fator de segurança. Decidiram, por isso, continuar a experiência e levar adiante manobras que afastaram o reator, cada vez mais, do regime de funcionamento estável. Quando se deram conta da situação que haviam criado, era tarde demais." in CIÊNCIA HOJE, vol 6 n° 32, "Tchernobyl 1 ano depois, o que houve afinal?" Bernhard Gross, Instituto de Física e Química de São Carlos, USP, pesquisador do CNPQ.

"O vazamento foi verificado através de uma mossa já existente na tampa da fonte, anteriormente ao incidente." In carta CNA.N.I.264.86 fl. 3 Pedro José Diniz de Figueiredo, Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto.

13- Chernobyl, 10 anos depois, Alexei Yablokov, chefe da Comissão Russa de Segurança Ecológica disse que ainda é cedo para avaliar o custo final e as conseqüencias:

"Hiroshima and Nagasaki and other nuclear catastrophes showed us that the height of illness began only ten years afterwards. What we are seeing now is only what we could call the buds (from the Chernobyl accident), the real fruit will come later. The final consequences will be much worse than we ever thought because ... there are still so many things we don't know about radiation."

14-Tokaimura, "Lamentavelmente, temos de admitir que de início fizemos uma apreciação inadequada." Hiromu Nonaka, porta-voz do governo japonês, sobre o acidente de 30.09.1999.

15- "Desconhecia a existência desta quantidade lá. Não me recordo de que tenham licença para manter isso em Angra" - disse o secretário estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, André Corrêa, sobre os dois galpões de rejeito nuclear de média e baixa atividades da Central Nuclear de Angra, como mostrou O GLOBO, em 20.02.2000.

15.1- "A questão se arrasta há anos e não há legislação clara a respeito. O Governo está preocupado com um problema que pode prejudicar o meio ambiente de umas das regiões mais bonitas do Estado. Vamos tratar o assunto com segurança e responsabilidade, sem alarde. Se é importante ter energia, é importante também que seja energia saudável, que proteja o meio ambiente." Governador Anthony Garotinho sobre o licenciamento para operação da Central Nuclear, à Globo News, em 19.02.2000.

15.2- "O país só precisa fazer o depósito definitivo para dar um descanso psicossomático à população." Deputado federal Antônio Feijão (PST-AP), que foi relator na Comissão de Minas e Energia da Câmara, sobre o projeto de lei que determina um local permanente para estocagem de lixo nuclear.

16- "Átomos gasosos escapam através das imperfeições dos invólucros metálicos das varetas de combustível. O acúmulo desta radioatividade representa ameaça para os que fazem a manutenção da usina. A radioatividade é lançada no ar por meio de uma chaminé da usina. A radioatividade também penetra na água usada no reator, e é assim liberada num rio ou lago.

Argumenta-se, contudo, que os resíduos radioativos liberados no ar e na água são insuficientes para prejudicar o homem. Mas, mesmo que nenhuma radiação caia direto sobre os humanos na vizinhança imediata, ainda há o grave perigo para os que moram a muitos quilômetros de distância. Pois a radioatividade pode concentrar-se em reservas alimentícias. Pode, por exemplo, fixar-se no capim, sendo comido este pelas vacas, e concentrar-se no leite delas. As crianças que bebem o leite talvez então recebam doses perigosas de radioatividade.

Muitos cientistas se preocupam em especial visto que centenas de usinas nucleares talvez estejam em breve liberando resíduos radioativos. O Dr. Ernest J. Sternglass, professor de física de radiação da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, crê que as usinas nucleares já são responsáveis pela morte de bebês. Oferece dados comprobatórios, diz ele, dum "excesso" de mortes de bebês em áreas próximas a reatores nucleares."

17- Sobre o acidente que afundou a maior plataforma de petróleo da PETROBRAS: "A Comissão de Sindicância que apurou o acidente da P-36 concluiu que foi uma sequência de eventos que se alinharam de forma única e que, isoladamente, não teriam provocado seu afundamento. A Comissão fez recomendações para melhorar os processos internos, como os de emergência e de operação." -PETROBRAS em Ações/Julho de 2001.