Vítimas ainda têm sequelas da radiação

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Vítimas ainda têm sequelas da radiação

DA AGÊNCIA FOLHA/01.10.2001

"Se eu disser que estou bem, estarei mentindo, apenas vegeto. Nos últimos 14 anos só tive luta, muita dor e sofrimento." Assim Lourdes das Neves Ferreira, 49, resume o que ocorreu com sua vida após o acidente com a cápsula do Cs137 em Goiânia. Lourdes é mãe de Leide das Neves Ferreira, que morreu aos seis anos, contaminada após ingerir o pó radioativo. Após o acidente, o Estado criou a Suleide (Superintendência Leide das Neves), para cuidar das vítimas.

O pai de Leide, Ivo Alves Ferreira, 54, carrega as mãos defeituosas e uma série de complicações decorrentes da radiação. "Ele perdeu um dedo e tem lesões na mão e na coxa que estão abertas e inflamadas até hoje. Recentemente, Ivo passou sete dias na UTI e seu estado ainda é preocupante", afirmou Lourdes. Além do casal, o filho Lucimar, 28, também foi incluído no grupo 1 das vítimas, que tiveram contato direto com o césio. A filha mais velha, Lucélia, 30, não estava em casa no dia do acidente e foi incluída no grupo 3. O servidor Ernesto Fabiano, 60, carregou fragmentos da cápsula no bolso da calça e teve descalcificação óssea e contraiu uma grave lesão na perna.

Submetido a uma série de tratamentos e cirurgias de enxertos, Fabiano fraturou o osso da perna recentemente e afirma que ainda sente dores. "Tive que me aposentar por invalidez." O catador de papel Roberto Santos Alves, 28, que retirou a cápsula do Instituto Goiano de Radioterapia, teve o antebraço direito amputado e reclama justiça. "Os responsáveis não foram devidamente punidos", afirma. Outro que reclama por atendimento é o policial militar Gaspar Alves da Silva, 37, que fez plantões a menos de 30 metros da fonte radioativa antes que fosse levada para a vigilância sanitária. "Vi dois companheiros morrerem de câncer, tenho certeza de que foram contaminados."

Controle mudou após o acidente

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Apesar de a CNEN assegurar que diminuíram os riscos de um acidente com césio, para o vice-presidente do Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luís Pinguelli Rosa, "ainda há muita deficiência em proteção nuclear".

Pinguelli era presidente da Sociedade Brasileira de Física na época do acidente radioativo em Goiânia e acompanhou as primeiras ações para conter a contaminação. "Depois de constatado o problema, as medidas de contenção foram corretas, mas não estou tão tranquilo. Não há indícios de que o sistema de segurança e controle tenha sido tão melhorado."

Para o físico, um dos principais problemas para o monitoramento das fontes -usadas em hospitais, indústrias e pesquisas- é o número reduzido de profissionais qualificados. No país, há 55 fiscais para controlar 9.406 fontes em 1.641 instituições. O césio solúvel foi substituído por matrizes sólidas, metálicas, que impedem a propagação de radiação.

O acidente em Goiânia também obrigou a CNEN a reformular todo o sistema de controle e fiscalização de materiais radioatômicos usados no país. Até 87, a comissão limitava-se a cadastrar as fontes e recolhê-las quando solicitada.

Agora, toda vez que uma fonte é comprada, a licença é dada pela CNEN. Se o projeto de uso for aprovado, ainda acontece uma visita de acompanhamento. Depois de instalada, a fonte é monitorada pela Secretaria da Saúde ou Vigilância Sanitária.

Grupo teve tratamento em Cuba

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O acidente com o césio marcou também um pacto de cooperação inédito entre Brasil e Cuba, assinado em 1992. O acordo permitiu que 53 vítimas (grau 1) tivessem atendimento médico especializado naquele país. Poucos meses antes, 10 mil crianças soviéticas contaminadas após a explosão da usina nuclear de Chernobyl, em abril de 1986, haviam sido atendidas pela mesma equipe médica, chefiada por Norge Romero Cordies.

"Além de passar por todos os exames necessários, as vítimas tiveram atendimento psicológico", disse o presidente da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), Fernando Peregrino, que acompanhou as vítimas.

"Uma cápsula radioativa pode irradiar o núcleo e provocar efeitos nos filhos e netos, além de alterações genéticas. Essa insegurança é a maior vilã desse tipo de acidente porque age sobre a incerteza. Esse trabalho fez com que essas pessoas voltassem a ter segurança."

O intercâmbio científico também permitiu a instalação do laboratório de ciência radiológica, que desenvolve estudos sobre medicina radiológica e é responsável pela medição e calibração dos níveis de radioatividade dos hospitais do Rio de Janeiro.

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